O Desassossego (parte 1)

basquiat

 (Glenn – Jean-Michel Basquiat)

 Minha infância foi marcada por mudanças. Nasci em São Paulo e aos três anos de idade mudei para o interior. Dois anos depois voltei à capital paulista. Aos oito anos de idade meu pai conseguiu uma oportunidade de trabalho nos Estados Unidos, onde morei por um ano e meio. Voltar para São Paulo ficava cada vez mais difícil. Quando fiz quatorze anos voltamos a morar no interior, mas somente um ano depois meus pais decidiram que era hora de voltar para a cidade grande. Sofri muito na época. Já não é fácil ser adolescente, quanto mais uma adolescente que vive começando do zero.

Quando tinha dezenove anos, meus pais me deram a notícia que devido a problemas financeiros voltaríamos a morar no interior. No entanto, por ser maior de idade, meu pai me deu outra opção: ele pagaria a minha passagem de ida para a Austrália (onde meu irmão estava morando há algum tempo) e chegando lá eu me virava. Não pensei duas vezes, e duas semanas depois de completar vinte anos me mudei para lá.

O acordo seria que meu irmão me ajudaria, e ajudou, mas tive sorte e consegui um emprego nos primeiros dias. Depois de alguns meses na Austrália decidi que não voltaria ao Brasil. Queria aproveitar meu passaporte italiano e fazer faculdade na Europa, e para isso tinha que juntar bastante dinheiro. Meus planos foram interrompidos quando sofri um acidente de carro e fraturei o pescoço. Tive muita sorte por ter sobrevivido e não ter sofrido nenhum tipo de paralisia permanente, mas isso é uma outra longa história.

Ao voltar para o Brasil, fiquei quase seis meses fazendo fisioterapia e morando com meus pais no interior. Por ter voltado contra a minha vontade, a depressão foi inevitável. Decidi que eu não desistiria dos meus planos, e que iria para a Europa mesmo assim. Foi então que soube que a Universidade Anhembi Morumbi estava oferecendo aos seus estudantes um programa de intercâmbio na Espanha, e no mesmo momento me matriculei no curso de Cinema. Dois anos depois me mudei para a capital espanhola, e antes que meu ano de intercâmbio terminasse, consegui uma transferência e me formei em Comunicação Audiovisual na Universidad Europea de Madrid.

Na Espanha me encontrei. Fiquei completamente apaixonada pelo país, pelas pessoas e pela qualidade de vida. Me formei, e pouco tempo depois consegui um bom emprego em uma produtora, graças à uma amiga e colega de classe peruana. Morei quatro anos em Madri, e só fui embora para acompanhar meu namorado que havia sido aprovado para fazer uma pós graduação na Universidade de Cambridge. Fui embora em setembro de 2011, e nessas alturas a crise na Europa estava braba.  Na Inglaterra foi difícil no começo, me sentia um peixe fora d’água, o que não é de se estranhar se levamos em conta que morei em Cambridge, uma cidade relativamente pequena, onde tudo é voltado à Universidade e aos estudantes.

Quando a pós graduação do meu namorado terminou, e depois de passar um mês viajando pelo sul da Espanha e Portugal, decidi que cinco anos era tempo suficiente fora, e que queria morar no Brasil de novo. Acontece que São Paulo nunca foi pra mim, e para ele então, menos ainda! Um inglês que cresceu no interior do País de Gales jamais vai se adaptar a tamanha selva de pedras. Depois de uma temporada em Sampa, decidimos mudar para Belo Horizonte. Cidade arborizada, comida boa, gente simpática, bom clima… mas obviamente com bem menos oportunidades que São Paulo. Especialmente pra mim, que ando em uma crise de identidade, sem saber o que quero ser quando crescer já crescida.

Agora convivo com mil dilemas, mas tenho plena consciência que eles são frutos das minhas escolhas. Eu escolhi viajar, escolhi qualidade de vida acima de tudo, escolhi me aventurar. Não priorizei uma carreira, ganhar dinheiro, comprar um carro e uma casa. Priorizei conhecer culturas diferentes, amar como se não houvesse amanhã e deixar a vida me levar. Ao contrário de muita gente que conheço, eu nem sempre soube o que eu queria fazer. Experimentei um pouco de tudo, e até hoje não sei qual é a minha “vocação profissional”. Não me especializei em nada, mas sou capaz de me adaptar rapidamente a qualquer situação. Falo três idiomas, aprendo rápido e aprendi desde cedo a superar obstáculos sem medo. Infelizmente nas vagas de emprego que vejo hoje na capital mineira, o mais importante é “experiência na função”, aparentemente “experiência na vida” já não vale nada.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s